Estratégia

Qual proporção entre receita recorrente e projetos faz sentido?

A mesma receita total pode pedir verba, equipe e reservas diferentes conforme venha de contratos contínuos ou de projetos. Veja como comparar cenários com premissas explícitas antes de fixar a meta.

Três composições para comparar. Mais recorrência: Mais visibilidade, mas depende de cancelamento e concentração Mix equilibrado: Núcleo fixo e projetos; verba depende do fechamento Mais projetos: Caixa varia com ticket, duração e propostas fechadas
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Não há uma proporção correta entre receita recorrente e projetos que sirva para toda empresa de serviços. O que existe é uma meta defensável, que nasce de três perguntas: quanto do caixa dos próximos meses você precisa conhecer com antecedência, quanta venda nova a sua operação consegue sustentar e que equipe a receita mantém nos meses fracos. Este texto propõe uma forma de responder a isso com uma planilha simples, usando números hipotéticos.

O que conta como recorrente

A Stripe define receita recorrente como aquela que a empresa pode razoavelmente esperar receber de novo, em intervalos definidos, dos mesmos clientes, enquanto o relacionamento estiver ativo, incluindo contratos contínuos de prestação de serviços. Na planilha, isso pede um critério prático: um projeto que o cliente costuma repetir não entra na coluna recorrente, porque nada o obriga a voltar. Entra o que tem periodicidade, escopo e valor combinados, mesmo que o cliente possa cancelar.

Premissas antes de comparar

A proporção, sozinha, não diz como o caixa se comporta. Uma carteira 80% recorrente pode oscilar bastante se poucos clientes concentrarem a receita, se o cancelamento for alto ou se o pagamento atrasar. Um mix 20/80 pode exigir pouca venda nova se os projetos forem longos, se houver indicação ou recompra. Por isso, fixe antes: taxa de cancelamento mensal, concentração dos maiores clientes, prazo de recebimento, margem por tipo de receita, ticket e duração dos projetos, e quantas propostas viram projeto.

Exemplo hipotético de fluxo mensal

Considere uma empresa fictícia com receita média de R$ 200 mil por mês nos três cenários, janela de 12 meses e valores em reais por mês. Suponha margem de contribuição de 40% no recorrente e de 30% nos projetos, e que cada pessoa da equipe fixa custe R$ 15 mil por mês, já com encargos. Esses números são inventados só para mostrar a conta.

CenárioRecorrente / projetos (R$ mil)Margem de contribuição mensal (R$ mil)Folha fixa que a margem cobre, com 60% da margem reservada à equipe
A: 80/20160 / 4064 + 12 = 76cerca de 3 pessoas (45,6 mil ÷ 15 mil)
B: 50/50100 / 10040 + 30 = 70cerca de 2,8 pessoas (42 mil ÷ 15 mil)
C: 20/8040 / 16016 + 48 = 64cerca de 2,6 pessoas (38,4 mil ÷ 15 mil)

A diferença de margem vem apenas das premissas hipotéticas, e mudar a margem de cada tipo muda a ordem. O que a tabela não mostra ainda é o mês mínimo. Teste-o assim: no cenário A, se a carteira perder R$ 24 mil de recorrência (15%) e os projetos não fecharem, a receita cai para R$ 136 mil e a margem para cerca de R$ 54 mil. No cenário C, se nenhum projeto novo começar por dois meses, a receita pode cair para perto de R$ 40 mil de recorrência mais o que restar de projetos em andamento. Em ambos os casos, confira também o caixa, que depende do prazo de recebimento, e não só a margem.

Como testar com os seus números

  1. Separe a receita dos últimos 12 meses em recorrente e pontual, pelo critério de periodicidade combinada.
  2. Para o recorrente, projete cancelamentos e reajustes. A Stripe sugere, ao tratar de previsão em SaaS, testar a sensibilidade das premissas, e a mesma lógica serve para contratos de serviços.
  3. Para projetos, calcule quantos novos clientes por mês repõem a receita, considerando propostas enviadas, taxa de fechamento e ticket. O custo de aquisição é o gasto do período dividido pelos novos clientes do mesmo período.
  4. Para cada cenário, calcule margem, folha e horas disponíveis. Contratos contínuos ocupam capacidade todo mês, então compare horas vendidas com horas disponíveis.
  5. Rode um mês ruim por cenário (perda do maior cliente, projetos atrasados, recebimento em 60 dias) e veja quantas pessoas fixas ele sustenta.
  6. Compare os resultados e escolha a meta que a operação suporta.

Limites da decisão

Mais recorrência tende a dar visibilidade, mas também compromete capacidade por prazo indeterminado. Antes de empurrar o mix nessa direção, confira se a equipe comporta isso, o que o texto Capacidade operacional antes de vender ajuda a medir. Projetos podem ter ticket maior e abrir portas para contratos contínuos, mas dependem da sua taxa de fechamento. Para entender o que um número de receita mensal pode esconder, leia também MRR: o que o número esconde.

Para definir a meta de mix, monte as três colunas com a sua receita média real, preencha margem e prazo de recebimento de cada tipo e calcule o mês ruim de cada cenário. Defina, antes de ver o resultado, qual folha fixa você quer proteger nesse mês; a meta de mix é a menor recorrência que a mantém coberta.