Gestão comercial

A empresa vende bem por indicação: dá para repetir isso de propósito?

Uma parte das indicações dá para provocar de propósito. A outra depende de quem conhece quem, e o jeito de separar é olhar venda por venda o que aconteceu de verdade.

Capa com a pergunta se dá para repetir a indicação de propósito e três blocos: o que vira rotina, a relação a manter e o que depende de pessoa ou momento.

Se boa parte das vendas hoje chega por indicação, alguma hora o planejamento vai perguntar se dá para contar com isso no ano que vem. E ninguém na mesa sabe dizer de onde essas indicações vieram, nem se vão continuar.

Quando a empresa passa a planejar em cima de indicação sem saber o que a provoca, ela está tratando um acaso que se repetiu como se fosse processo. Ninguém precisa ter errado para chegar aí. A indicação chega pronta, e se ninguém anotou como ela começou, depois não há o que analisar.

A resposta curta é que uma parte dá para repetir. Pedir indicação num momento definido, dar um link marcado ao parceiro que manda clientes com frequência e registrar cada indicação no CRM são coisas que o time consegue fazer de propósito. Já a rede pessoal de um sócio, ou a coincidência de alguém precisar de você justo naquela hora, continua fora do seu controle mesmo anotada numa planilha.

Pergunte por que a pessoa indicou

Eu começaria por uma pergunta só: por que essa pessoa recomendou a empresa, e por que naquele momento? Pode ter sido um cliente que reconheceu uma entrega, e esse momento a equipe consegue identificar de novo. Pode ter sido um parceiro que esbarra, no trabalho dele, com a necessidade que vocês resolvem, e aí existe uma relação para acompanhar. Ou um conhecido do sócio lembrou do nome numa conversa, o que explica a venda mas não deixa nada para o time executar. Cada resposta leva a uma decisão diferente.

Reconstrua cada indicação com um registro curto

Eu pediria ao time um registro por venda indicada, feito para entender a recomendação. A organização geral da origem comercial está em origem das vendas no CRM. Aqui bastam cinco pontos:

  • Quem indicou e qual a relação com a empresa: cliente, parceiro, fornecedor ou contato pessoal de sócio.
  • O que motivou a indicação, segundo quem indicou ou quem chegou, anotando quem confirmou essa explicação.
  • Quando aconteceu: data ou período confirmado, sem inventar precisão.
  • Até que etapa a oportunidade avançou no processo comercial.
  • O que ficou desconhecido porque ninguém confirmou.

“Gostou do serviço” fica como hipótese enquanto ninguém tiver dito isso. Preencher toda lacuna deixa a planilha com cara de organizada, só que atrapalha justamente a decisão sobre o que repetir.

As vendas fechadas são o ponto de partida. Daqui em diante, eu acompanharia também as indicações que não viraram negócio, senão a análise só enxerga quem comprou. A primeira coleta pode aproveitar as perguntas do primeiro contato, sem virar interrogatório.

Separe o que a empresa consegue repetir

Com os registros na mão, eu usaria três categorias. Elas servem para decidir onde vale montar uma rotina, sem transformar uma relação boa em previsão de vendas.

Diagrama escuro com o registro de cinco pontos por venda indicada à esquerda, ligado por uma seta às três categorias de indicação e ao que fazer em cada uma.
O registro curto de cada venda indicada leva à categoria e à ação correspondente. Diagrama ilustrativo, sem dados de cliente.
CategoriaO que apareceuO que fazer
RepetívelParceiro recorrente ou momento identificável depois de uma entrega reconhecida pelo cliente.Definir quando abordar, quem acompanha e onde registrar.
Parcialmente repetívelA relação pode ser mantida, mas a recomendação depende de uma necessidade de terceiros.Manter o contato organizado sem presumir frequência de indicações.
Dependente de pessoa ou momentoRede pessoal de um sócio ou encontro circunstancial.Preservar a relação e deixar esse limite claro no planejamento.

Dois exemplos inventados, só para ilustrar. No primeiro, um cliente aprova uma entrega e, na mesma conversa, confirma que ela resolveu o problema dele. Esse é um momento que a equipe consegue reconhecer de novo e usar para pedir indicação. O pedido vira rotina, mas se o cliente tem alguém para indicar continua fora do seu alcance.

No segundo, um sócio reencontra um antigo colega justo quando ele procura fornecedor. Vale registrar, porque explica a venda, só que não deixa nenhum passo que o time possa repetir. E mesmo o primeiro caso, se aparecer uma vez só, ainda não é padrão.

Por que o relatório do site não mostra o boca a boca

Se a agência mostrar o GA4 com uma linha chamada Referência, o nome sugere recomendação, mas a definição é outra. Pela documentação dos canais do Google Analytics, Referência é quem chegou por links não pagos em outros sites ou aplicativos, como blogs e sites de notícias. Direto é quem chegou por um link salvo ou pelo endereço, e Pesquisa orgânica é quem veio de resultados de busca que não são anúncio.

Não existe um canal para indicação nessa lista. A partir dessas definições, a inferência é que alguém que ouviu falar da empresa e depois buscou o nome pode aparecer como Pesquisa orgânica, e quem digitou o endereço pode aparecer como Direto. O relatório mostra por onde a pessoa entrou no site, não quem falou da empresa para ela.

Com o parceiro que manda clientes por link, dá para ir além. A documentação sobre URLs com UTM explica que parâmetros como utm_source e utm_medium identificam a origem e a mídia de um link, e esses valores chegam ao Google Analytics quando alguém clica. Por isso um link marcado para cada parceiro recorrente separa os acessos que ele mandou. Uma recomendação feita numa conversa, sem clique, continua fora desse registro.

Escolha uma condição e acompanhe

Eu não mexeria em tudo de uma vez. Escolheria uma condição já confirmada nos registros, por exemplo pedir indicação depois de uma entrega que o cliente reconheceu. Repare que eu disse reconheceu: entrega concluída, por si só, não confirma que o cliente ficou satisfeito. Para essa ação, definiria um responsável e acompanharia até onde cada oportunidade avança, inclusive as que não virarem venda.

Para fechar, um exercício. Pegue as últimas vendas indicadas e peça ao time que explique cada uma sem usar “sorte” nem “timing”. No lugar dessas palavras entra o que aconteceu, quem estava envolvido e o que dá para comprovar. Onde faltar confirmação, escreva “desconhecido”.

Se nenhuma condição repetível aparecer, isso também é resposta: o planejamento para de contar com algo que ninguém sabe provocar. Para levar esse registro ao acompanhamento comercial, a próxima leitura é origem das vendas no CRM.