Mensuração

Modelo de atribuição do Google Ads: quem fica com o crédito da venda?

Aquela campanha zerada no relatório pode ter participado da venda. Antes de cortar, pergunte qual regra decidiu quem ficou com o crédito.

Cena ilustrativa sobre modelo de atribuição do Google Ads: quem fica com o crédito da venda?
Imagem ilustrativa gerada para o artigo, sem dados de cliente.

Você quer cortar uma campanha porque, no relatório, ela gastou e não trouxe conversão nenhuma. Só que, quando o cliente passa por mais de um anúncio antes de fechar, a dúvida real é outra: essa campanha ficou fora da venda ou só não recebeu crédito pela regra que o relatório usa? Na tabela as duas situações aparecem iguais, e cada uma leva a uma decisão diferente.

Essa regra é o modelo de atribuição. No Google Ads, ele define quanto crédito cada interação com anúncio recebe pela conversão. Então o relatório mostra quem ficou com o crédito segundo o modelo escolhido, e isso, sozinho, não prova quem gerou o negócio.

Ficar com o crédito e causar a venda são coisas diferentes

A documentação do Google Ads sobre atribuição descreve justamente essa situação: no caminho até a conversão, a mesma pessoa pode interagir com vários anúncios do mesmo anunciante, e o modelo escolhido decide quanto crédito cada interação recebe. Antes de olhar a linha de uma campanha, você precisa saber que regra produziu aquele número.

Saber quem recebeu o crédito e provar que a venda dependeu daquele anúncio são perguntas diferentes. Uma interação pode receber crédito e o dado continuar sem dizer se a pessoa compraria sem ela. Do outro lado, ficar zerada no último clique não prova que a campanha foi inútil. Para qualquer uma das duas conclusões, a distribuição do relatório não basta.

E tem uma pergunta que vem antes: o que está sendo chamado de conversão? Se a ação medida é um pedido de contato, o crédito é por esse contato. Num negócio de venda consultiva, isso ajuda a análise comercial, mas não pode ser apresentado como se cada contato fosse um negócio fechado.

O mesmo caminho, dois jeitos de dividir o crédito

Imagine um caso hipotético. Um sócio procura um software de gestão que se compra direto no site. Primeiro, clica num anúncio sobre o problema que quer resolver. Em outro dia, clica num anúncio sobre funcionalidades. Depois de avaliar, pesquisa o nome da empresa, clica no anúncio da marca e compra. Cada um desses cliques veio de uma campanha diferente.

Interação no caminho hipotéticoÚltimo cliqueBaseada em dados
Anúncio sobre o problemaSem crédito por essa conversãoPode receber uma parcela, conforme a contribuição estimada pelo modelo
Anúncio sobre funcionalidadesSem crédito por essa conversãoPode receber uma parcela, conforme a contribuição estimada pelo modelo
Anúncio da marca (último clique)Todo o crédito por essa conversãoRecebe a parcela que o modelo estimar

No último clique, o anúncio da marca e a palavra-chave correspondente ficam com 100% do crédito. Na atribuição baseada em dados, segundo o Google, o crédito é distribuído a partir das informações anteriores daquela ação de conversão e dos dados da sua conta. Por isso a tabela não traz percentuais: quem faz a divisão é o modelo, com os números da conta.

Repare que a venda continua sendo uma só. Trocar de modelo não coloca uma segunda compra no caixa. O que muda é quanto daquela conversão aparece na linha de cada campanha, e uma pode ganhar o que a outra perdeu sem que as vendas tenham subido ou caído. O mesmo vale para o baseado em dados: ele reparte a mesma conversão de outro jeito, e a parcela do primeiro anúncio continua sendo crédito, sem provar que a venda não sairia sem ele.

O que perguntar à agência antes de cortar

Eu pediria uma resposta curta, por escrito, sobre a ação de conversão que está sendo analisada. No Google Ads, o modelo vale para cada ação de conversão separadamente, então ouvir que “a conta usa baseado em dados” pode esconder ações configuradas de jeitos diferentes dentro do mesmo relatório.

Diagrama claro com seis cartões de perguntas para a agência, sobre ação medida, modelo, troca recente, lances, comparação no mesmo período e limites de dados, e uma faixa azul pedindo que ação, modelo e data da troca fiquem registrados junto da recomendação.
As perguntas que mostram se a recomendação de corte se sustenta ou era efeito da regra de atribuição. Diagrama ilustrativo, sem dados de cliente.
  • Qual ação de conversão sustenta a afirmação de que essa campanha não converte?
  • Qual modelo de atribuição essa ação usa?
  • Desde quando esse modelo está em uso? Houve troca recente?
  • Se houve troca, quais campanhas com lance automático passaram a otimizar pelo novo modelo?
  • A recomendação de corte se mantém quando comparamos último clique e baseado em dados no mesmo período?
  • Algum limite de dados atrapalha essa comparação?

Confira também se a explicação está em dia. O Google informa que os modelos linear, primeiro clique, baseado na posição e iminência da conversão foram descontinuados, que as ações que usavam esses modelos passaram para baseado em dados e que o último clique continua aceito. Uma apresentação antiga que ainda fala em modelo linear não descreve a configuração de hoje.

Não compare períodos com modelos diferentes

Se um mês usou último clique e o seguinte usou baseado em dados, a mudança no crédito de cada campanha pode ser só efeito da troca de regra. O próprio Google avisa que alternar entre modelos pode afetar os dados de conversão. E o efeito vai além do relatório: nas estratégias de lance automático que otimizam conversões, como CPA desejado ou ROAS desejado, o modelo escolhido afeta como os lances são otimizados. Então a comparação entre esses dois meses não serve de prova de que a campanha melhorou ou piorou.

Eu pediria duas leituras: os dois modelos lado a lado no mesmo período, e a evolução entre períodos sob uma regra só. O Google oferece para isso o relatório Comparação de modelos e as colunas de “modelo atual”, que mostram como os dados históricos ficariam sob o modelo escolhido. Isso importa porque a troca de configuração só muda o registro nas colunas comuns daquele momento em diante, e o histórico anterior continua contado pela regra antiga.

Essa comparação também tem limite. Segundo a documentação, o relatório pode mostrar os dados históricos só em parte e deixar de fora redes ou campanhas sem dados suficientes. Se for o caso, a restrição precisa vir escrita junto da conclusão, porque uma tabela incompleta não sustenta uma decisão definitiva sobre a campanha.

A atribuição ajuda a decidir, mas não decide sozinha

Nenhum desses modelos é o certo para todo negócio, e receber crédito no baseado em dados também não justifica manter qualquer campanha. O que muda é a conversa: com a ação medida, o modelo e os limites da comparação na mesa, fica claro se a recomendação de corte se sustenta ou se era efeito da regra.

Na próxima reunião, leve as seis perguntas antes de aprovar o corte e peça que a ação medida, o modelo e a data da última troca fiquem registrados junto da recomendação da agência. Se a discussão seguir para o que conta como origem da venda depois que o contato chega ao comercial, a próxima leitura é origem das vendas no CRM.